Nos últimos dias, uma meia-sola na estrutura da Infraero tem ocupado as manchetes e disputas políticas no interior do governo. Aparentemente o ministério da Defesa, a quem a companhia é subordinada, está promovendo uma faxina em cargos inúteis no organograma da estatal. O objetivo seria prepará-la para possível abertura de capital. Trata-se de mudança meramente cosmética, com vistas a fazer a empresa palatável a investidores que acreditem na seriedade de intenções do acionista majoritário. E assim convencidos se disponham a adquirir ações da companhia em um lançamento público. Acredite quem quiser.
A crônica recente, e mesmo remota, da gestão das empresas controladas pelo Estado brasileiro não conduz, em qualquer hipótese, a melhorias em seus padrões gerenciais. Nem mesmo nas companhias abertas há muitos anos ou décadas que, em tese, deveriam ser paradigmas de atuação séria e ética, voltada para os interesses dos acionistas.
Empresas são entidades com fins econômicos. Seus objetivos são lucros e remuneração adequada aos sócios. Não é o caso das estatais brasileiras de capital aberto. Não passam de repartições públicas disfarçadas com roupagem e formas societárias. O exame de alguns poucos acontecimentos, recentíssimos, apenas demonstra o que afirmo.
O Banco do Brasil, aos 200 anos de sua fundação, admitido à cotação na BMF – BOVESPA foi, há cerca de um mês, vítima de violência inédita em nossa história econômica. Seu presidente e maioria dos diretores foram removidos dos cargos e substituídos por elementos ligados ao partido do governo. O objetivo precípuo da nova administração é reduzir o chamado spread, ou seja, a remuneração do banco em suas operações, isto é, o resultado de seus acionistas. É caso único na economia universal, executivos serem contratadas para reduzir os lucros de uma empresa.
Por sua vez a Petrobrás, cujas ações são as mais negociadas na bolsa brasileira, passou os últimos dois anos, de explosão nos preços internacionais do petróleo, sacrificando seus números no altar da popularidade do governo, que não pretendia ser atingido por altas nos preços internos da gasolina. Os resultados foram esmagados sem nenhuma consideração pelos acionistas privados, inclusive estrangeiros, que hoje detém mais de 60% do capital da empresa. Empresa é eufemismo, o mais correto seria classificá-la como departamento governamental com sócios particulares, sem direito a voz ou voto. E é necessário não esquecer que era em seus quadros que o famigerado Severino Cavalcanti pretendia emplacar a diretoria “que fura poço”.
Já a Eletrobrás, tanto quanto sua irmã petrolífera entregue à sanha predadora dos partidos da base, ostenta tantos ou mais penduricalhos políticos do que a Infraero. E acaba de ser mimoseada pelo Congresso com a isenção de efetuar licitações, para “agilizar” seus investimentos.
São três companhias abertas, negociadas em Bolsa, subordinadas ao mesmo acionista majoritário, o Tesouro Nacional, representado pelo governo da ocasião. Todas com padrões de gestão e comportamentos corporativos não compatíveis com princípios básicos de eficiência empresarial. Muito menos com os interesses de seus acionistas privados. E a CVM, rotulada de “xerife do mercado”, é impotente para questionar as práticas de estatais que prejudiquem seus minoritários. Ela é parte da mesma máquina burocrática, apenas mais um dos tentáculos do polvo governamental, e não tem condições políticas de questionar as atitudes de congêneres mais poderosas.
Há algumas perguntas que não me saem da cabeça: Por que com a Infraero, que até anteontem era um vasto cabide de empregos, vai ser diferente? O que ocorrerá, na hipótese fatal do atual ministro da Defesa deixar de sê-lo? E quando os “Severinos Cavalcantis” pressionarem o acionista majoritário nas eternas barganhas políticas do Parlamento brasileiro?
Parece que a lipoaspiração na Infraero é feita para deixar a moça mais curvilínea durante noivado e casamento, quer dizer, o processo de abertura e a data do IPO. No século XIX, a malandragem brasileira cunhou a expressão “para inglês ver”. Assim se classificavam artifícios e providências destinados a engabelar os estrangeiros que aqui chegavam para negociar em boa fé. Hoje, os ingleses não precisam mais fazer viagens transatlânticas. Executivos brasileiros se dirigem ao hemisfério norte em solenes caravanas denominadas “Road shows” que vão atrair investidores para comprar ações de promissoras empresas nacionais. A Infraero está na fila, novinha em folha, recauchutada com uma cirurgia plástica como só se faz no Brasil.
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