segunda-feira, 20 de abril de 2009

FRACASSOS ESTATAIS – 02

O LLOYD BRASILEIRO

Por quase todo o Século XX, a vaidade tupiniquim se orgulhou de que a bandeira brasileira, nosso “Auriverde Pendão”, singrava os sete mares nas marolas provocadas pelos navios do Lloyd Brasileiro. O Lloyd era a máxima representação internacional da nacionalidade, tanto quanto hoje o é a PETROBRÁS. Nos anos 1970, como hábito daquela era megalômana, passou a se chamar LLOYDBRÁS.

Nascida empresa privada, em 1890, a companhia foi estatizada em 1913. Mantinha escritórios em Nova York, Hamburgo e demais portos importantes ao redor do globo terrestre. Onde não havia representação formal existiam agentes credenciados. Era um cabide de empregos de luxo e bem remunerados. Em minha família, por exemplo, há o caso de um tio-avô estróina que foi exilado como agente do Lloyd no Havre, nos anos 1930.

Tal tipo de gestão só poderia produzir maus resultados. Foram décadas de desmandos. E sempre autêntica caixa preta, como tantas estatais que conhecemos. Em seu apogeu, o Lloyd chegou a armar 122 navios. Aos poucos foi sendo descarnado e teve os ativos vendidos, roubados ou abandonados. O regime militar foi especialmente pródigo em promover abusos, inclusive submetendo a empresa ao controle de um de seus maiores antros de corrupção: a famigerada SUNAMAN, de triste memória.

Quando foi incluído no PND – Programa Nacional de Privatização, em 1992, o endividamento do Lloyd era de cerca de US$300 milhões (valor da época), sem ativos que pudessem cobrir tal responsabilidade. Um terço das dívidas estava concentrado no Banco do Brasil, como é costume acontecer quando empresas estatais se envolvem em complicações. Houve navios arrestados no exterior e tripulações impossibilitadas de retornar ao Brasil, por falta de recursos. O quadro era caótico. Em apenas dois anos a companhia teve sete presidentes. Ninguém queria ser o coveiro.

No entanto, o velório em vida prosseguia e o controle acionário de Lloyd Brasileiro foi submetido a três leilões de privatização, sem licitantes. Não houve quem segurasse a alça do caixão e o esquife permaneceu insepulto até 1997, quando uma Medida Provisória determinou a extinção da companhia.

O liquidante nomeado pelo ministro do Planejamento ainda publicou um relatório melancólico, em 2001. Havia cinco navios fundeados precariamente na baía de Guanabara, com 2.000 toneladas de óleo imprestável nos porões, transferidas a duras penas para outra dependente da Viúva, a Marinha do Brasil. Para 14 embarcações miúdas restantes fora reservada missão ecológica mais nobre. Seriam afundadas em frente ao litoral de Cabo Frio, para funcionar como recifes artificiais, estimulando a piscicultura e o desenvolvimento do meio ambiente na região oceânica do Estado do Rio de Janeiro. Ignoro se o objetivo foi atingido.

Assim soçobrou o símbolo internacional da nacionalidade, nos anos do Século XX. É importante relembrar esse fracasso, para tentar evitar novos naufrágios.

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