quinta-feira, 11 de junho de 2009

1971-UMA BOLHA CARIOCA

Guardadas as proporções de local, momento e amplitude as bolhas especulativas e suas débâcles são totalmente semelhantes na essência. A causa maior é sempre a mesma: a inarredável ambição humana que afrouxa os freios da aversão ao risco. Como cenário, normalmente, um ambiente institucional inovador, estimulante aos investimentos. E a música de fundo repete o velho mantra: desta vez é diferente. Quando os preços atingem a estratosfera, param de subir e os terremotos acontecem evoca-se o passado, em busca de explicações e similaridades. A recente catástrofe de 2008, cujos rescaldos ainda assistimos, traz à memória episódio do gênero ocorrido no Rio de Janeiro, há quase quatro décadas: a bolha de 1971. Não há comparação em termos de dimensões e conseqüências, mas vale rememorar. A substância é idêntica.

O primeiro trimestre de 1964 foi de terrível incerteza para a economia brasileira. A insegurança jurídica permeava cada ação do governo Goulart. Além das ameaças aos negócios e à livre iniciativa, surgiam por quaisquer lados sublevações da ordem pública e instigação às mais variadas revoltas. O país vivia um denso clima pré-revolucionário, em que todas as garantias, individuais ou patrimoniais, estavam em xeque.

Apesar de configurar uma ruptura, o movimento militar de 31 de março recuperou a confiança nas instituições. E desde logo o comando econômico do governo, nas mãos hábeis de Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, definiu novos rumos para a economia. A estabilidade da moeda foi designada como prioridade, e para conduzi-la criado o Banco Central. Em seguida o Mercado de Capitais foi eleito ferramenta básica para a consecução do desenvolvimento. A lei 4.728, que leva esse nome, foi draconiana, na medida em que abriu e liberou as Bolsas dos cartórios de corretores de fundos públicos, que as dominavam havia sete décadas.

Dois anos depois, em fevereiro de 1967, um Decreto-Lei, de número 157, acendia a primeira brasa do fogaréu que iria crepitar em 1971. Por essa medida eram concedidos incentivos tributários à compra de ações. Estava formado o ambiente institucional para que uma bolha especulativa se produzisse. Havia segurança jurídica, novos instrumentos operacionais, estimulados pela legislação, e a “cereja fiscal” centelha importante na definição dos novos rumos da economia.

Mesmo com a transferência da capital para Brasília, ocorrida poucos anos antes, o Rio de Janeiro seguia sendo centro econômico e financeiro do Brasil. Do velho prédio do Ministério da Fazenda, na Esplanada do Castelo, ainda emanavam as diretrizes que ditavam os rumos do país, sobretudo num regime discricionário. O Banco Central se dispersava entre vários edifícios ao redor da Praça Pio X, em frente à Igreja da Candelária, nas imediações de sua célula-mater, a velha sede do Banco do Brasil, na Rua Primeiro de Março. Num desses imóveis, ensaiava seus primeiros passos a Gedip-Gerência da Dívida Pública, organismo que implantava o open-market no país.

Grandes bancos comerciais, de investimentos, seguradoras e financeiras independentes mantinham suas matrizes ou sucursais importantes na cidade. Na estreita Rua do Ouvidor era possível cruzar com Walter Moreira Salles, se dirigindo ao escritório na sede da União de Bancos Brasileiros, depois Unibanco; David Rockfeller, em alguma visita periódica ao Banco Lar Brasileiro, braço do Chase Manhattan Bank; ou até o senador Magalhães Pinto, desembarcando de seu carro na porta do Banco Nacional de Minas Gerais, na esquina com Avenida Rio Branco. E assim dezenas de outros personagens importantes da vida econômica brasileira.

Na Praça XV, um prédio de inspiração Art Déco já meio decadente abrigava a Bolsa do Rio, a mais importante do Brasil. E foi, sobretudo, ali que se desenvolveu o drama de 1971.

Os velhos corretores de fundos públicos haviam saído de cena, substituídos por sociedades corretoras, como mandava a nova legislação. Tinha havido uma mudança de geração, e o mercado passou a ser dominado por jovens, mas ainda sobressaíam, como antes, inexperiência e empirismo. Poucas casas se dedicavam à análise de investimentos, fosse técnica ou fundamentalista. De modo geral, pode-se dizer que um contato de clientes daquela época sabia o preço de todas as ações, mas desconhecia os valores por trás de qualquer delas.

Apesar de tais carências, a partir de 1969, o público se havia expandido. E era constituído, basicamente, de pessoas físicas, de indivíduos. O fantasma da inflação galopante do governo Goulart estava definitivamente sepultado. O mercado de ações, com os estímulos governamentais, se configurava como a mais atraente alternativa de investimento. Desde fins de 1970 os especuladores, de todas as idades e condições sociais, chegavam em hordas aos escritórios de corretoras. Os novos lançamentos de ações, tanto quanto os IPO’s de 2008, eram ferrenhamente disputados e os preços explodiam no primeiro dia de negociação.

A explosão do mercado pode ser medida nos dados dos índices de Bolsa, deflacionados pelo dólar. Entre o início de 1969 e meados de 1971, dois anos e meio corridos, as cotações evoluíram oito vezes. Foi uma alta coletiva de cerca de 800%. Nos mesmos dois anos e meio da última fase explosiva, de princípios de 2006 ao topo do mercado no meio de 2008 o IBOVESPA subiu cerca de 300%, menos da metade do comportamento percentual de 1971.

Não existiam computadores, e a manipulação de papéis e documentos ocupava enormes contingentes de funcionários nas corretoras. Trabalhava-se à noite e nos fins de semana, para atualizar a pletora de serviços burocráticos. Por sua vez a Bolsa do Rio tinha caído em um canto de sereia. Como tantas outras empresas e entidades, país afora após 1964, a Bolsa do Rio se rendera à administração e influência de militares. Eram algumas dezenas de coronéis, majores, tenentes, sargentos etc. com nenhuma preocupação de custos. A Bolsa se transformara numa estatal mal gerida. O nepotismo grassava e como subproduto mulheres bonitas no quadro funcional e brutal ineficiência.

Em junho de 1971 o mercado parou de subir. Subitamente o inconsciente coletivo reagiu aos absurdos da alta especulativa. Os preços degringolaram e com eles o volume de negócios e os emolumentos da Bolsa. Três ou quatro meses depois, o coronel superintendente da Bolsa confessava estar pedindo empréstimos bancários para saldar a folha de pagamento. Não houve divulgação pública dos fatos, até porque regimes de força detestam escândalos, sobretudo, quando envolvem seus pares e apaniguados. Mas a má gestão, guardadas as proporções, pode ser comparada aos malfeitos dos financiadores de hipotecas de 2008. Como sentenciou Warren Buffett, “é na maré baixa que se vê quem está nadando nu”. E quem o fazia, em 1971, era a própria Bolsa do Rio.

Quase 40 anos depois, muitos personagens e testemunhas dos fatos ainda se encontram no dia-a-dia do Rio de Janeiro. No entanto, essas e outras histórias de 1971 ainda estão por ser contadas em detalhes coloridos e subterrâneos reveladores.

Um comentário:

  1. Mais uma vez, nosso escriba da ágora financeira nos brinda com um delicioso texto, no qual faz de um episódio com gosto de limão, uma boa caipiroska.

    Abração,


    Leonardo Faccini

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