Confesso minha ignorância. Não a conhecia, mas fiquei encantado. A palavra dislate ostenta 65 sinônimos no Dicionário Eletrônico Houaiss. Por falta de tempo não fiz a pesquisa, mas muito poucos termos da língua portuguesa devem apresentar número parecido de sinonímias. Para facilitar o entendimento vou relacionar alguns significados mais comuns: asneira, babaquice, baboseira, besteira, bobagem, burrice, despautério, despropósito, disparate, estultice, estupidez, necedade, palermice, parvoíce, tolice, etc. Restam outras 50 acepções com idêntico sentido.
A matéria de hoje trata de dislates lingüísticos, nacionalistas ou politicamente corretos. E, por incrível que pareça, as duas vertentes são avenidas de mão dupla. Tanto tentam evitar importações lógicas e naturais, quanto às estimulam no que é esdrúxulo e desnecessário.
A primeira de tais imbecilidades diz respeito a legislações que vem sendo aprovadas localmente, como no Paraná e na cidade do Rio de Janeiro. Visam impedir o uso de palavras estrangeiras em propaganda comercial ou, no mínimo, que venham acompanhadas da respectiva tradução. Em nível federal o monopólio de tal asnice, já há algum tempo, é do deputado Aldo Rebello (PCdoB-SP). Nada mais idiota. Se a palavra "sale", liquidação, não fosse conhecida dos clientes, os comerciantes não a usariam, pois não se fariam entender. O objetivo da dona de “boutique” (lojinha em português) ou do “restaurant” (casa de pasto no vernáculo) não é entregar a língua aos estrangeirismos, mas simplesmente aumentar suas vendas. E nem se fala dos termos em inglês que nos chegam de modo avassalador pela Internet. Muito menos dos milhares de palavras que apresentam raízes alienígenas em nosso linguajar coloquial. Anglicismos, galicismos, espanholismos, tupi-guaranismos etc. foram sendo absorvidos, naturalmente, pela língua portuguesa falada no Brasil ao longo dos cinco séculos de vida nacional.
Entretanto, recentemente, certas falanges vêm importando e nos impondo modismos politicamente corretos, que nada tem que ver com nossos hábitos e intimidade linguística. Negão, crioulo e mulato, tão cordiais, passaram a ser termos racistas e ofensivos, sendo substituídos pelo mais que norte-americano afro-descendente. Esse tipo de trasladação é admitido e estimulado pelos mesmos círculos ideológicos que querem proibir palavras em inglês na publicidade do dia-a-dia.
Assim também, a configuração masculina ou feminina de alguém passou a ser chamada gênero ao invés de sexo, como sempre foi. Hoje, é politicamente correto dizer-se que tal indivíduo é do gênero masculino. Ora, em nossa língua gênero têm as palavras, não os seres humanos. O maneirismo é sacado do bolso do mesmo colete norte-americano, que tem usado "gender" (gênero em português) para definir sexo ou identidade sexual.
As práticas politicamente corretas constituem uma das mais nefastas tiranias com que se pode conviver: o fascismo comportamental. Ele objetiva transformar os que não o seguem em párias sociais, tanto quanto, praticamente, já conseguiram com os fumantes, e seguem tentando com os apreciadores de bebidas alcoólicas. Por acaso, duas confrarias às quais me orgulho de pertencer.
Nunca, na história deste país, se viram tantos dislates do tipo como agora. Seja o nacionalismo lingüístico, seja o internacionalismo politicamente correto. São farinhas de igual saco, vinhos de uma só pipa, produtos do mesmo penico cultural.
domingo, 2 de agosto de 2009
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